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QUANDO A CAMPANHA TERMINA A REALIDADE BATE NA PORTA...

 


Existe uma velha máxima segundo a qual uma mentira repetida muitas vezes pode até convencer muita gente por algum tempo. O problema é quando termina a campanha, desmonta-se o palanque, silenciam-se os carros de som e a realidade começa a cobrar a conta.

E talvez seja exatamente aí que começa esta crônica.

Na sucessão municipal, o então prefeito Diógenes Tolentino, o Dinha, tinha diante de si várias possibilidades dentro do próprio grupo político. Havia secretários, vereadores, aliados históricos e até seu vice. Mas a escolha recaiu sobre Devaldo Soares, o Del, apresentado ao eleitorado como o homem destinado a dar continuidade ao projeto político que governava Simões Filho.

A campanha ganhou contornos quase messiânicos.

Del chegou a ser apresentado politicamente como uma escolha abençoada por Deus.

E aqui faço uma pergunta simples: desde quando Deus precisa assinar ficha de filiação partidária?

Segundo relato atribuído a pessoa ligada à comunicação do antigo governo, essa construção teria feito parte da estratégia para fortalecer a candidatura do sucessor. Trata-se de relato que, naturalmente, precisa ser confrontado com provas e com a versão dos envolvidos.


Mas uma coisa foi pública e politicamente muito mais poderosa:


“Dinha é Del e Del é Dinha.”


A frase praticamente eliminava qualquer distância entre criador e criatura.


A mensagem transmitida ao eleitor era cristalina: votar em Del significaria votar pela continuidade de Dinha.


E não faltaram demonstrações públicas dessa unidade política.


O grupo fechou questão. A candidatura foi abraçada e a máquina política entrou em campo vendendo a promessa de continuidade: Simões Filho continuaria “crescendo e avançando”.


Funcionou.


Del venceu a eleição.


Mas eleição acaba.


E é justamente depois dela que a propaganda precisa enfrentar aquilo que nenhum marqueteiro consegue maquiar eternamente: a realidade administrativa.


Vieram então os questionamentos.


O vereador Carlos Neto passou a levantar dúvidas sobre cancelamentos de empenhos realizados no encerramento da administração anterior e levou questionamentos aos órgãos de controle. Se houve irregularidade, insuficiência financeira ou procedimento administrativo legítimo é algo que precisa ser determinado tecnicamente pelos órgãos competentes.


Também cresceram as perguntas envolvendo grandes obras e financiamentos públicos.


A rodoviária tornou-se símbolo dessas interrogações.


O radialista Ataíde Barbosa colocou no ar uma pergunta que passou a ecoar no debate político:


Onde está o dinheiro da rodoviária?


Perguntar não é condenar.


Mas dinheiro público exige resposta pública.


Da mesma maneira, questionamentos relacionados aos recursos provenientes das operações do FINISA chegaram aos órgãos de fiscalização. O advogado Luciano Marcos Ferreira apresentou representação questionando a aplicação desses recursos.


Cabe às instituições investigar.


Cabe aos denunciados apresentar suas explicações.


E cabe à sociedade acompanhar.


O que não pode existir é silêncio.


DINHA É DEL. MAS AGORA DEL NÃO É MAIS DINHA OU DINHA NÃO É MAIS DEL?

Aqui mora uma das maiores ironias desta história.

Durante a eleição, quando era necessário conquistar votos:

Dinha era Del.

Del era Dinha.

Agora, diante das dificuldades administrativas, das manifestações populares e das cobranças que atingem o governo municipal nas diversas áreas e com o caos instalado na saúde, será que alguém tentará criar uma nova versão?

Algo parecido com:

“Não fui eu. Agora é problema de Del.”

Ora, meus nobres leitores, na política não deveria existir casamento apenas durante a lua de mel eleitoral.

Quem reivindica os méritos de uma continuidade precisa estar preparado para responder politicamente também pelo legado que deixou.

Outro ponto merece reflexão.

Uma mudança de governo, ainda que entre aliados, deveria ser acompanhada de uma transição administrativa rigorosa: situação financeira, contratos, empenhos, dívidas, patrimônio, obras em andamento, convênios e compromissos futuros.

Se isso não aconteceu adequadamente, a população tem direito de perguntar:

Por quê?

Se Del era o escolhido para continuar o projeto, por que não teria recebido previamente um diagnóstico completo da Prefeitura que assumiria?

E por que áreas estratégicas permaneceram ocupadas por figuras diretamente vinculadas à administração anterior?

São perguntas políticas legítimas.

O PASSADO VOLTA A BATER À PORTA

Agora começa outro período eleitoral.

E personagens que pareciam silenciosos voltam às ruas, aos eventos, às reuniões e às articulações.

A memória política, entretanto, costuma ser curta.

Por isso esta crônica não pretende dar ao leitor uma sentença pronta.

Pretende entregar-lhe perguntas.

Quando alguém bater novamente à sua porta pedindo voto, pergunte:

Quem governava quando esses contratos foram assinados?

Quem autorizou os gastos?

Como foram utilizados os recursos dos financiamentos?

Qual foi a situação financeira efetivamente deixada para o sucessor?

O que aconteceu com as obras prometidas?

Quem deve responder pelos problemas herdados e quem deve responder pelos problemas criados depois?

E principalmente:

Se durante a campanha disseram que “Dinha é Del e Del é Dinha”, será possível agora separar os dois apenas porque a realidade administrativa se tornou politicamente inconveniente?

Essa resposta não pertence ao cronista.

Pertence aos órgãos de controle quando houver investigação.

Pertence à Justiça quando houver processo.

E, politicamente, pertence ao eleitor.

Porque eleição não deveria ser concurso de memória curta.

O eleitor precisa comparar promessa com resultado, discurso com documento, propaganda com prestação de contas.

E quando novamente aparecerem candidatos, padrinhos e antigos aliados dizendo:

“Agora vai ser diferente.”

Faça apenas uma coisa:

lembre-se do que disseram da última vez.

No final, meus leitores, esta crônica termina onde verdadeiramente começa a democracia: com a palavra, o eleitor de Simões Filho.

Afinal, depois de tudo o que aconteceu, a pergunta que ficará diante das urnas não será minha.

Será de cada cidadão:

ELES QUEREM VOLTAR. E VOCÊ, ELEITOR, QUER ELES DE VOLTA?

Por Alberto de Avellar

Crônicas do Bom Velhinho

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