Em um momento ímpar no tabuleiro da política de Simões Filho, em que as palavras de ordem parecem ser campanha, caminhada e garimpagem de votos, quase sempre sem qualquer proposta concreta, apenas com o velho e conhecido cheiro da política tradicional, algumas manifestações acabam chamando a atenção justamente por apresentarem conteúdo.
Na 25ª Sessão da Casa Legislativa, o vereador Eri Costa antecipou a corrida eleitoral de 2028 ao lançar seu nome como possível candidato a prefeito, fazendo uma explanação quase satírica sobre a política local:
“Não somos autores de projetos de lei; somos atores de um grande espetáculo.”
E, como a Casa Legislativa parece ter se transformado em um grande espetáculo ao melhor estilo romano do “pão e circo”, criou-se também um verdadeiro batalhão de cronistas, comentaristas, influenciadores e outros bichos para falar sobre a conturbada política simões-filhense.
Nada mais justo, portanto, do que entrar em cena o jornalista Mário Nobre, o Matuto do Sertão Baiano, com seu inseparável lápis e a velha tabuada de 9 — aquela mesma que eu utilizava há mais de 60 anos para fazer o dever de casa.
No Panorama de Notícias, diante do comentarista Ataíde Barbosa, Mário resolveu fazer as contas eleitorais da deputada estadual Kátia Oliveira. Entre números, projeções e cálculos políticos, procurou demonstrar, à sua maneira, que um mais um continua sendo dois e que, pelas contas apresentadas por ele, Kátia teria dificuldades para conquistar a reeleição.
Mas foi à noite que tivemos algo que, na minha avaliação, ultrapassou os limites de uma simples entrevista.
No Pod Notícias do Poder, o jornalista Rafael Santana, assessor-chefe da ASCOM do Legislativo e vencedor do Prêmio Narrativas do Tribunal de Justiça da Bahia em 2025, conduziu com maestria uma entrevista com Elias Mello.
Elias dispensa grandes apresentações. Dono de um currículo respeitável na política local, foi o primeiro secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano na gestão do ex-prefeito Diógenes Tolentino, o Dinha, e atualmente atua como analista político e historiador.
Mello, sem sombra de dúvida, não concedeu apenas uma entrevista.
Deu uma verdadeira aula sobre sustentabilidade.
E isso acontece justamente em um momento importante para Simões Filho, quando se discute a revisão do PDDM — Plano Diretor de Desenvolvimento Municipal, instrumento fundamental para pensar o crescimento urbano, a mobilidade, o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável da cidade.
Em minha avaliação, Elias Mello conseguiu esclarecer pontos importantes e algumas pontas soltas relacionadas à administração de Dinha, trazendo informações e interpretações que podem contribuir para compreender fatos ocorridos naquele período e, principalmente, para pensar o futuro do município.
A RODOVIÁRIA E O ALERTA DE ELIAS MELLO
Mello abordou também um dos assuntos mais debatidos atualmente em Simões Filho: o Terminal Rodoviário, uma obra que se arrasta há mais de dois anos e envolve gastos milionários.
Segundo Elias Mello, o terminal estaria sendo construído em um local inadequado por uma razão que merece atenção das autoridades e da sociedade.
De acordo com sua explicação durante a entrevista, naquela região passariam adutoras ligadas ao sistema de Pedra do Cavalo, responsável pelo abastecimento de água de parte significativa da Região Metropolitana de Salvador.
Mello alertou que, na hipótese de um rompimento provocado ou agravado por intervenções realizadas na área, as consequências poderiam ser graves para o sistema de abastecimento, atingindo diversos municípios da Região Metropolitana.
Trata-se de uma afirmação importante que, pela dimensão do assunto, merece ser tecnicamente verificada pelos órgãos responsáveis.
Elias acrescentou ainda que, em sua avaliação, o Terminal Rodoviário deveria ter sido construído do outro lado da pista, em uma área anteriormente vinculada à Vale, onde teria funcionado uma antiga unidade relacionada à produção ou ao processamento de escória de manganês.
Segundo Mello, material proveniente dessa área teria sido utilizado durante o governo Dinha em intervenções viárias realizadas no município, inclusive no período próximo à campanha eleitoral de 2020.
São declarações relevantes e que, justamente por sua gravidade, merecem esclarecimentos técnicos e documentais.
Onde estão os estudos que definiram a localização da nova Rodoviária de Simões Filho?
Houve análise sobre a existência de adutoras no local?
Quais órgãos emitiram pareceres e autorizações para a implantação do empreendimento naquela área?
Essas são perguntas que precisam ser respondidas.
E AÍ SURGE UMA PERGUNTA INEVITÁVEL…
Muitas vezes me pergunto como o prefeito Devaldo Soares, o Del do Cristo Rei, pode demonstrar tantas dificuldades em determinadas áreas de sua administração enquanto existem, dentro e fora do governo, pessoas com experiência, conhecimento técnico e capacidade para contribuir efetivamente com a gestão pública.
Enquanto alguns parecem inertes diante dos problemas da cidade, circulam pelas redes sociais, podcasts, rádios, sites e até pelos corredores da política municipal personagens que possuem conhecimento e experiência suficientes para ajudar a fazer a diferença no tabuleiro político e, principalmente, na administração pública de Simões Filho.
A entrevista de Elias Mello mostrou exatamente isso:
sustentabilidade não pode ser apenas uma palavra bonita em discursos, campanhas ou documentos oficiais.
Precisa virar planejamento, participação social e política pública.
E, sobretudo, planejamento urbano não pode ser feito apenas olhando para o próximo mandato ou para a próxima eleição.
É necessário pensar nas próximas gerações.
Porque uma cidade que pretende discutir seriamente o futuro precisa, antes de tudo, saber para onde quer ir — e conhecer muito bem o terreno onde pretende construir esse futuro.
Por Alberto de Avellar – Crônicas do Bom Velhinho

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