Prefeito afirma que aliança com Cláudio Cajado foi construída em busca de recursos para Simões Filho; documentos apresentados mostram Diógenes Tolentino e Giovana Cerqueira de Oliveira como secretários parlamentares, com valores de cargos em comissão que, no mês analisado, somam mais de R$ 37 mil
A disputa eleitoral em Simões Filho parece ter ultrapassado definitivamente os limites de uma simples escolha entre candidatos a deputado federal. As declarações públicas dos últimos dias evidenciam o afastamento político entre o prefeito Devaldo Soares, o Del, e seu antecessor, Diógenes Tolentino, o Dinha.
No centro dessa queda de braço estão dois deputados federais: Cláudio Cajado, que conquistou o apoio de Del, e Paulo Azi, que permanece politicamente ligado a Dinha.
E foi justamente durante um evento político realizado em 25 de setembro de 2026 que Del fez uma declaração que ganhou repercussão nos sites e grupos políticos da cidade:
“Porque quando sentei com Cajado, eu não pedi nada pra mim, não. Eu quero recursos pro povo da cidade. Eu não negociei cargos políticos. Eu não negociei espaços políticos.”
A declaração não menciona Dinha nominalmente. Entretanto, diante das provocações e discursos que vêm marcando a campanha, a fala soa politicamente como uma resposta ao ex-prefeito, embora não seja possível afirmar, sem declaração expressa de Del, que Dinha tenha sido o destinatário direto do recado.
DINHA FALA EM “AMIGOS QUE NÃO DESBOTAM”
Do outro lado, Dinha também vem elevando o tom durante seus discursos.
Em suas manifestações políticas, o ex-prefeito tem afirmado possuir “amigos que não desbotam”, citando aliados como os vereadores Orlando de Amadeu, Bomba Mota e Moisés.
No atual cenário, a expressão tem sido interpretada nos bastidores como uma referência aos aliados que permaneceram no mesmo campo político, em contraste com Del, que decidiu não apoiar Paulo Azi.
Mais uma vez, é preciso separar interpretação de fato: caso Dinha não tenha mencionado Del nominalmente ao utilizar a expressão, não se pode afirmar que a frase tenha sido dirigida diretamente ao atual prefeito.
Mas o contexto político fala por si: Del está com Cajado; Dinha está com Azi.
E a eleição começa a medir não apenas a força dos candidatos, mas também a capacidade de liderança e transferência de votos dos dois grupos.
DOCUMENTO MOSTRA DINHA COMO SECRETÁRIO PARLAMENTAR
Nesse cenário surge um componente objetivo que ajuda a contextualizar a disputa.
O demonstrativo apresentado à reportagem, identificado como proveniente do sistema da Câmara dos Deputados, mostra Diógenes Tolentino Oliveira na categoria funcional de Secretário Parlamentar, ocupando função/cargo em comissão SP22.
O documento informa como data de exercício 16 de maio de 2025.
Na folha referente a março de 2026, consta o valor de R$ 18.707,20 na rubrica “Função ou Cargo em Comissão”.
O demonstrativo apresentado também registra R$ 648,96 em “Outras Remunerações Eventuais/Provisórias”.
Assim, as rubricas visíveis no documento de Dinha totalizam R$ 19.356,16 naquele demonstrativo.
GIOVANA TAMBÉM APARECE COMO SECRETÁRIA PARLAMENTAR
Um segundo documento apresentado acrescenta outro dado à reportagem.
Nele aparece Giovana Cerqueira de Oliveira, filha de Diógenes Tolentino, igualmente enquadrada na categoria funcional de Secretário Parlamentar.
O documento informa:
Cargo: Secretário Parlamentar
Função/cargo em comissão: SP22
Data de exercício: 21 de março de 2023
Período apresentado: março de 2026.
Na parte visível do demonstrativo de remuneração, consta R$ 18.655,12 referente à função ou cargo em comissão.
Portanto, considerando exclusivamente essa rubrica principal apresentada nos documentos de pai e filha, temos:
Diógenes Tolentino: R$ 18.707,20
Giovana Cerqueira de Oliveira: R$ 18.655,12
Somadas, as duas remunerações de cargo em comissão alcançam R$ 37.362,32 no mês analisado.
Se for acrescentada a rubrica de R$ 648,96 que aparece no demonstrativo de Dinha, os valores visíveis apresentados chegam a R$ 38.011,28.
CARGOS NÃO SIGNIFICAM IRREGULARIDADE
Aqui existe uma distinção indispensável.
O fato de Dinha e Giovana aparecerem como secretários parlamentares e receberem remuneração pelos respectivos cargos não constitui, por si só, prova de qualquer irregularidade.
Entretanto, os documentos são informações de interesse público e ganham relevância jornalística diante do discurso político travado atualmente em Simões Filho.
E é exatamente aí que a declaração de Del ganha uma dimensão ainda maior.
“EU NÃO NEGOCIEI CARGOS”
Quando o prefeito afirma publicamente:
“Eu não negociei cargos políticos. Eu não negociei espaços políticos.”
ele estabelece uma narrativa para justificar sua escolha por Cláudio Cajado.
Segundo Del, sua negociação teria sido por recursos para Simões Filho, e não por benefícios políticos pessoais.
A partir dessa declaração surge também uma cobrança legítima: quais recursos foram efetivamente assegurados por Cajado para o município?
Se a justificativa pública para a aliança é a obtenção de investimentos, emendas e recursos, o eleitor tem o direito de conhecer os compromissos assumidos e, posteriormente, acompanhar sua execução.
DINHA, PAULO AZI E A BATALHA PELO VOTO
Dinha, por sua vez, permanece empenhado na campanha de Paulo Azi e vem utilizando sua presença nas ruas para defender antigos aliados e tentar consolidar votos.
A disputa ganhou uma característica particularmente interessante: o ex-prefeito tenta demonstrar que continua exercendo liderança política mesmo depois de deixar o comando da Prefeitura, enquanto Del procura construir sua própria identidade e autonomia política.
É nesse ponto que Cajado e Azi deixam de ser os únicos protagonistas.
A eleição também se transforma numa espécie de teste das forças de Del e Dinha dentro de Simões Filho.
Quem conseguirá entregar mais votos ao seu candidato?
AS URNAS PODEM RESPONDER QUEM TEM A FORÇA
A poucos dias da eleição, as peças estão praticamente colocadas no tabuleiro.
Dinha aposta em Paulo Azi e ressalta a fidelidade dos seus “amigos que não desbotam”.
Del responde apresentando outro conceito de aliança:
“Não pedi nada para mim.”
“Não negociei cargos.”
“Não negociei espaços políticos.”
“Quero recursos para o povo da cidade.”
Enquanto isso, os documentos apresentados mostram que Diógenes Tolentino e Giovana Cerqueira de Oliveira ocupam cargos de secretário parlamentar, ambos identificados como SP22, com valores de cargo em comissão que, somente no mês analisado, somam R$ 37.362,32.
Não há, apenas com esses documentos, fundamento para dizer que exista ilegalidade.
Mas há, indiscutivelmente, um contraste político que merece ser apresentado ao eleitor.
No final, quem dará a resposta não será Del, Dinha, Cajado ou Azi.
Serão as urnas.
E o resultado poderá mostrar não apenas quem ganhou uma eleição para deputado federal em Simões Filho, mas também quem saiu politicamente fortalecido da primeira grande disputa entre Del e Dinha depois do rompimento
Por Alberto de Avellar — Crônicas do Bom Velhinho



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