Meus nobres pensadores inquietos e calejados leitores de Simões Filho, muitos talvez não tenham compreendido o significado do título desta crônica. Outros preferem fingir que não entenderam. Mas os fatos políticos que se desenham diante dos olhos da população indicam que o tabuleiro do poder em Simões Filho atravessa uma das maiores transformações desde 2016.
O Poder Legislativo, que constitucionalmente possui a missão de legislar e fiscalizar os atos do Poder Executivo, vive hoje uma crise sem precedentes. A pergunta que ecoa nos corredores da política local é inevitável: o que restou do grupo “Pensa Simões Filho”, responsável pela ascensão política do ex-prefeito Diógenes Tolentino, o Dinha?
As eleições de 2020 já demonstravam fissuras importantes. O processo eleitoral de 2024 aprofundou ainda mais as divisões. Hoje, antigos aliados, vereadores e lideranças que participaram da construção política do grupo afirmam ter sido esquecidos ou preteridos, formando aquilo que muitos já chamam de “grupo dos traídos”.
Nesse cenário, o atual presidente da Câmara, Itus Ramos, que durante muito tempo foi considerado um dos principais sustentáculos políticos do ex-prefeito, também aparece cada vez mais distante do núcleo original. Ao lado de outros vereadores, passa a integrar um bloco político que demonstra independência em relação às antigas lideranças.
O aspecto mais curioso dessa nova configuração é que muitos desses parlamentares se apresentam como apoiadores do atual prefeito Del do Cristo Rei, ao mesmo tempo em que se afastam politicamente do ex-prefeito Dinha.
A crise expõe uma antiga contradição da política local: a ideia de que o chefe do Executivo deve indicar ou determinar quem comandará a Mesa Diretora da Câmara. Tal concepção colide diretamente com o princípio constitucional da independência entre os Poderes, ainda que devam atuar de forma harmônica.
Caso o atual grupo político que controla a presidência da Câmara mantenha sua força até dezembro de 2026, o Legislativo poderá exercer influência significativa sobre a pauta municipal, inclusive na análise das contas públicas referentes ao exercício de 2024. Isso amplia a importância do atual embate político.
Outro episódio que chamou atenção foi o lançamento da pré-campanha da deputada estadual Kátia Oliveira. Apesar da expectativa de grande mobilização política, apenas parte da base governista compareceu ao evento, com as presenças dos vereadores Del Capoeira, Bombeiro Mota, Moisés, Sid Serra e da suplente Andréia Almeida.
Nos bastidores, circulam relatos de forte movimentação política para garantir apoio ao projeto eleitoral do grupo. “Quem tá com Dinha tá com Del e quem tá com Del tá com Kátia”, pelo visto há noite apesar da ameaça velada o resultado foi pífio de 17 vereadores da base apenas quatro estavam presentes. Também surgiram questionamentos sobre o uso de estruturas públicas e sobre discursos políticos realizados em eventos ligados à pré-campanha. Tais situações, quando houver elementos concretos, podem ser objeto de análise pelos órgãos competentes da Justiça Eleitoral e do Ministério Público Eleitoral.
A judicialização da disputa pela Mesa Diretora da Câmara, por sua vez, demonstra que o conflito ultrapassou os limites da articulação política e ingressou no campo jurídico. O embate deixa de ser apenas uma disputa por cargos e passa a representar uma disputa pelo controle político do município.
No final das contas, quem corre o maior risco de sair prejudicada é a população de Simões Filho, que acompanha uma guerra de grupos enquanto permanecem os desafios na saúde, educação, mobilidade urbana e geração de emprego.
O que se vê hoje talvez não seja apenas uma crise política. Pode ser o início do fim de um ciclo de poder que dominou a política simõesfilhense durante quase uma década.
E como diria o velho cronista cansado de tantas pelejas: na política, nada está perdido, mas nada está garantido. Tudo pode acontecer. Inclusive nada.

0 Comentários