Crônica de Domingo – Domingo é dia de silêncio, reflexão e, para alguns, de encenação.
Enquanto a cidade ainda espreguiça a alma ao som dos hinos e das promessas de redenção, há quem prefira não aparecer no altar, mas jamais abandona os bastidores. É ali, longe das câmeras oficiais, que certos personagens se sentem mais à vontade. Foi exatamente assim que o ex-prefeito Dinha reapareceu — não como fiel anônimo, mas como protagonista informal da Semana da Cultura Gospel.
Cercado por puxa-sacos de primeira ordem, daqueles que chamam poder de virtude e silêncio de fé, ele transitava com desenvoltura, Bíblia em uma mão e passado pesado na outra. Um homem que tenta vender a imagem de evangélico justo, temente a Deus, mas que carrega nos ombros uma coleção de processos e denúncias que não cabem em nenhum salmo.
Réu em diversos processos por supostos desvios de dinheiro público, enriquecimento ilícito e abuso de poder político e econômico, Dinha parece ter desenvolvido uma fé muito particular: a fé na impunidade. Afinal, para ele, tudo é perseguição. Perseguição do Ministério Público. Perseguição da imprensa. Perseguição de vereadores. Perseguição da realidade.
Nos bastidores do evento religioso, enquanto os cantores falavam de amor, justiça e verdade, os cochichos lembravam contratos sob investigação. O da saúde, com empresas denunciadas por possíveis irregularidades. O da rodoviária, onde milhões foram pagos em terraplanagem e a obra segue parada, como monumento à incompetência ou algo pior. Empréstimos milionários, terrenos comprados por pessoas “convenientemente próximas” ao poder, denúncias que chegaram à Receita Federal e ao Ministério Público Federal. Tudo isso embalado por louvores.
A cidade vive hoje uma crise de identidade tão profunda que o povo já não sabe quem governa. Existe um prefeito eleito, acuado, enfraquecido, e existe um ex-prefeito que manda, desmanda e articula nos bastidores. Noventa por cento da gestão atual, segundo se comenta à boca pequena, ainda obedece às ordens do “Chefe”, como ele é chamado por seus seguidores mais fiéis — fiéis ao poder, não à fé.
E como toda gestão em crise, surge também o lado mais sombrio: denúncias da existência de um gabinete do ódio, agora com novo comando, especializado em vasculhar a vida do atual prefeito e de seus familiares, não para governar melhor, mas para chantagear, pressionar e manter o controle. Uma prática que nada tem de cristã, mas muito de maquiavélica.
Mesmo assim, lá estava ele, no meio da festa gospel, posando de líder espiritual improvisado, distribuindo abraços calculados e frases bíblicas fora de contexto. Um pastor sem púlpito. Um profeta sem milagres. Um político que ama o poder acima de tudo — inclusive acima de Deus.
A Bíblia já alertava: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores.”
E a pergunta que não quer calar ecoa pelas ruas de Simões Filho:
Evangelista ou monstro político?
Homem de fé ou falso profeta do poder?
Talvez a resposta esteja na soma de tudo isso. Um homem de dupla personalidade, que usa a religião como maquiagem moral, enquanto governa — direta ou indiretamente — pela perseguição, pelo medo e pela chantagem. Um personagem que troca o altar pelo palanque e a fé pelo dinheiro público.
Quando as luzes da Semana da Cultura Gospel se apagam, resta ao povo a ressaca moral de sempre: obras paradas, contratos suspeitos, serviços públicos precários e uma gestão refém de um passado que se recusa a ir embora.
A fé do povo merece respeito.
A cidade merece respostas.
E a história — ah, a história — não perdoa quem tenta enganá-la com versículos decorados e mãos sujas de poder.
Porque, no fim, nenhum louvor abafa o som da verdade batendo à porta.
O Bom Velhinho, que observa, escreve e espera que um dia a justiça seja mais forte que o teatro.

0 Comentários