O ano termina em Simões Filho como manda a tradição local: com tensão no ar, cochichos nos corredores do poder e uma estranha mistura de política com espiritualidade. Aqui, fé nunca foi apenas fé. Sempre dialogou — ou colidiu — com o poder.
Nos últimos meses, duas falas ecoaram com força incomum.
A primeira veio de Del. Em tom sereno, quase pastoral, afirmou que estava orando e que, em oração, Deus lhe revelara que dois políticos seriam retirados do cenário de Simões Filho. Não citou nomes, não estabeleceu datas. Disse apenas que a revelação viria no tempo certo.
Naquele momento, muitos trataram a fala como retórica religiosa. Mas o tempo passou, o processo avançou, e o que parecia discurso passou a soar como antecipação de um roteiro.
A segunda fala veio do altar. Ezenete Rodrigues foi direta, sem rodeios nem metáforas suaves:
“Essa cidade pertence ao Deus vivo. Haverá uma mudança drástica. Deus fará justiça.”
E completou com uma frase que atravessou fronteiras políticas e institucionais:
“Até o juiz vai mudar.”
Não era apenas uma crítica à política. Era uma denúncia espiritual de um sistema inteiro — Executivo, Legislativo e até o Judiciário — mergulhado em instabilidade, desconfiança e desgaste público.
Coincidência? Em Simões Filho, coincidências costumam ser apenas eventos que ainda não tiveram seus bastidores revelados.
Enquanto as palavras ecoavam nos púlpitos e nas redes sociais, os sinais começaram a surgir longe das câmeras. Secretarias estratégicas passaram a viver um clima de fim de festa. Reuniões reservadas, agendas esvaziadas, servidores atentos ao Diário Oficial como quem lê presságio. Rumores cada vez mais fortes apontam para o afastamento de nomes historicamente ligados ao ex-prefeito Diógenes Tolentino — peças-chave de um modelo de gestão que parece ter chegado ao limite.
Ezenete voltou a falar. Agora sem alegorias: denunciou mentiras ditas em nome de Deus, desvios de recursos da saúde, da educação e das obras públicas, e o uso indevido da fé para justificar práticas que ferem o interesse coletivo. Sua fala encontrou eco numa população cansada de promessas, mas ainda sensível à ideia de justiça — seja ela terrena ou divina.
Del, por sua vez, passou a ser visto por parte da opinião pública como alguém pressionado entre dois mundos: o da política pragmática e o da fé invocada como justificativa moral para rupturas que sempre foram adiadas. A imagem que circula nos bastidores é simbólica: a caneta como espada, decidindo quem permanece e quem cai.
Mas, como toda boa história simõesfilhense, nada é simples. Aqui, cabeças não rolam sem resistência. Profecias não se cumprem sem negociação. E mudanças raramente vêm limpas.
O fato é que 2026 já bate à porta, e a cidade sente que algo está prestes a mudar — ainda que ninguém saiba exatamente como. Se será cumprimento divino, ajuste político tardio ou apenas o desgaste natural de um grupo que perdeu o controle da narrativa, o tempo dirá.
Em Simões Filho, porém, uma coisa é certa:
quando fé e poder começam a falar a mesma língua, alguém sempre paga o preço.



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