SIMÕES FILHO: O GRITO DAS FAMÍLIAS, O ABANDONO AFETIVO E OS DESAFIOS DAS POLÍTICAS SOCIAIS.
Dados do IBGE, registros da segurança pública e documentos oficiais da assistência social revelam desafios que exigem respostas da Prefeitura e da Câmara Municipal. Mães atípicas, crianças e famílias em situação de vulnerabilidade precisam de atenção que vá além dos discursos políticos.
Reportagem especial | Simões Filho, Bahia | 24 de outubro de 2026
Enquanto as disputas partidárias ocupam as redes sociais e movimentam os bastidores da política de Simões Filho, uma questão muito mais profunda precisa entrar na pauta das autoridades: a proteção das famílias, especialmente das crianças, das mulheres e das mães que enfrentam praticamente sozinhas os desafios da maternidade.
A cada fim de semana as Crônicas do Velhinho vão divulgar e lançar questionamentos sobre diversas questões que afligem a nossa sociedade. Nesta primeira matéria vamos tratar do abandono parental, negligência familiar e a atuação das políticas públicas municipais. A crítica aponta para a Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania (SEDESC) e cobra maior responsabilidade dos representantes políticos.
Mas será que os documentos oficiais apresentam elementos capazes de sustentar essa preocupação?
A reportagem consultou informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Cadastro Único, do Ministério Público da Bahia e de órgãos estaduais de segurança pública. Os resultados mostram problemas sociais relevantes, embora não permitam afirmar que Simões Filho esteja entre as cidades com maiores índices de abandono parental no estado.
O retrato de Simões Filho segundo o IBGE
População no Censo 2022
114.559
Habitantes
Estimativa de 2026
120.429
Habitantes
Escolarização de 6 a 14 anos
98,66%
Censo 2022
PIB por habitante
R$ 74,3 mil
Referência de 2023
Um dos contrastes importantes do município está entre sua capacidade econômica e os desafios enfrentados pela população.
O PIB per capita de R$ 74.270,21, registrado em 2023, demonstra a dimensão da atividade econômica local. Entretanto, esse indicador não representa o dinheiro efetivamente recebido por cada morador, nem comprova uma distribuição equilibrada da riqueza.
Em outras palavras, uma cidade economicamente relevante também pode abrigar famílias em situação de pobreza, insegurança e vulnerabilidade social.
O desafio das autoridades é transformar desenvolvimento econômico em melhoria concreta da qualidade de vida.
Cadastro Único: o que os números podem revelar?
O Cadastro Único é uma das principais fontes para identificar a vulnerabilidade socioeconômica das famílias brasileiras.
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social informa que suas ferramentas permitem acompanhar composição familiar, renda, pessoas com deficiência e outras características relevantes para o planejamento das políticas públicas. 
Contudo, é indispensável fazer uma distinção: uma família chefiada por mulher, uma família monoparental ou um domicílio com apenas um responsável não representam, automaticamente, situações de abandono afetivo.
O abandono parental exige investigação específica, e os indicadores do Cadastro Único, isoladamente, não comprovam sua ocorrência.
A questão central para Simões Filho passa a ser: quantas famílias precisam de acompanhamento continuado e quantas efetivamente recebem a assistência necessária?
Esses são números que a administração municipal precisa tornar transparentes.
Violência doméstica: 128 medidas protetivas em apenas quatro meses
128
Medidas protetivas de urgência em tramitação
2ª Vara Criminal da comarca de Simões Filho, de janeiro a abril de 2025.
Fonte: Boletim Informativo Criminal nº 05/2025, do Ministério Público da Bahia. 
Este é um dos dados mais preocupantes encontrados na pesquisa.
De acordo com o Ministério Público da Bahia, no período de janeiro a abril de 2025, tramitaram 128 medidas protetivas de urgência na 2ª Vara Criminal da comarca de Simões Filho.
O número demonstra a existência de uma demanda expressiva por proteção judicial, embora não corresponda necessariamente a 128 novos casos registrados naquele período.
No mesmo documento, o Ministério Público destacou ações conjuntas com o Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM), a Prefeitura e as polícias Civil e Militar.
O órgão também informou redução de 25% nos Crimes Violentos Letais Intencionais em Simões Filho no período analisado pelo anuário de segurança pública. Ou seja, existem avanços registrados que também precisam ser reconhecidos. 
Já o Anuário de Segurança Pública da Bahia aponta que, em todo o estado, foram registrados 111 feminicídios em 2024, contra 115 em 2023. 
A violência dentro das relações familiares não pode ser encarada apenas como ocorrência policial. Suas consequências atingem crianças, adolescentes e mulheres, exigindo assistência psicológica, proteção social e acompanhamento permanente.
Mães atípicas: uma luta que não pode ficar restrita às redes sociais
Outro ponto levantado na manifestação de “Olho Vivo” merece atenção especial: a situação das mães atípicas.
São mulheres que, muitas vezes, precisam conciliar trabalho, sustento familiar, cuidados permanentes, tratamentos de saúde, acompanhamento escolar e deslocamentos para consultas especializadas.
A sobrecarga se torna ainda mais grave quando não existe uma rede de apoio familiar ou quando o acesso aos serviços públicos é insuficiente.
Em 22 de agosto de 2025, a Prefeitura de Simões Filho anunciou uma ação integrada da SEDESC voltada às mães atípicas, com atualização cadastral e orientações no CRAS. A iniciativa foi apresentada pela gestão municipal como forma de ampliar o acesso às políticas sociais. 
Entretanto, permanece uma pergunta fundamental:
Quantas mães foram atendidas e quais resultados concretos essas ações produziram na vida de suas famílias?
A realização de uma atividade institucional é importante, mas não substitui a necessidade de acompanhamento contínuo, atendimento especializado, transporte acessível e integração entre assistência social, saúde e educação.
As manifestações dessas mães merecem escuta, respostas individualizadas e soluções verificáveis.
SEDESC e Câmara Municipal: o desafio da responsabilidade pública
É necessário cobrar do prefeito Devaldo Soares, o Del, da direção da SEDESC e dos 17 vereadores de Simões Filho uma prestação de contas objetiva sobre os programas destinados à proteção familiar.
A cobrança deve ultrapassar o confronto entre situação e oposição.
Entre as informações que precisam ser apresentadas à população estão o número de famílias acompanhadas pelos CRAS e CREAS, os casos de negligência e abandono encaminhados à rede de proteção, o atendimento às mães atípicas, os recursos aplicados e as demandas que permanecem sem solução.
Não há elementos suficientes, nesta apuração, para declarar que todos os vereadores sejam omissos ou que a SEDESC tenha praticado negligência institucional. Mas existe fundamento para exigir transparência, fiscalização e explicações sobre a efetividade das políticas públicas.
A Câmara Municipal não pode limitar sua atuação às disputas por cargos, alianças e interesses eleitorais. Fiscalizar a aplicação do dinheiro público e acompanhar a execução dos serviços sociais também são deveres do Poder Legislativo.
O abandono afetivo não pode ser confundido com pobreza
É preciso compreender que abandono parental e abandono afetivo não são sinônimos de famílias pobres, separadas ou chefiadas por mulheres.
O abandono se relaciona à violação de deveres de cuidado e proteção. Já a vulnerabilidade econômica pode agravar dificuldades familiares, sem que isso signifique necessariamente ausência de afeto.
O poder público deve agir preventivamente, fortalecer vínculos familiares, proteger crianças e adolescentes e oferecer apoio às pessoas responsáveis pelos cuidados.
Por isso, os indicadores sociais precisam ser analisados com responsabilidade, sem transformar famílias vulneráveis em culpadas pelas desigualdades que enfrentam.
Afinal, onde vamos parar?
Simões Filho precisa discutir algo maior do que a próxima eleição, o próximo secretário ou a próxima composição política.
Precisa discutir o futuro de suas crianças, a dignidade de suas mães e a segurança das mulheres.
Os números oficiais mostram motivos para preocupação e para vigilância permanente. Também demonstram que existem iniciativas institucionais em andamento, cujo alcance deve ser acompanhado e fiscalizado.
A manifestação de “Olho Vivo” traduz uma cobrança legítima por atenção às famílias, mas suas afirmações mais graves exigem comprovação específica.
Uma administração pública deve ser avaliada não apenas pelos discursos de seus representantes, mas pela capacidade de transformar recursos, programas e promessas em proteção efetiva aos cidadãos.
Porque uma cidade verdadeiramente desenvolvida não é somente aquela que produz riqueza. É aquela que protege suas crianças, ampara suas mães, respeita seus idosos e não abandona as famílias que mais precisam.
E fica a pergunta para o prefeito Del, para a SEDESC e para os 17 vereadores:
QUEM ESTÁ CUIDANDO DAS FAMÍLIAS DE SIMÕES FILHO?

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