Ex-prefeito eleva o tom contra o atual gestor, exalta a vice e expõe publicamente um racha que já vinha sendo comentado nos bastidores da política de Simões Filho
Por Alberto de Avellar – Crônicas do Bom Velhinho
A temperatura política esquentou de vez em Simões Filho.
Um vídeo que circulou nas redes sociais nesta semana acrescentou combustível à disputa envolvendo o ex-prefeito Diógenes Tolentino, o Dinha, e o atual prefeito Devaldo Soares, o Del.
Nas imagens, Dinha chama a atenção do público para Simone Costa e se refere à vice-prefeita como “prefeita”. Em seguida, solta uma frase carregada de significado político: “Essa sim não desbota.”
O público reage com aplausos.
Em política, principalmente quando existe um rompimento em curso, palavras dificilmente são lançadas ao vento. A declaração foi interpretada como uma provocação direta a Del, que decidiu não acompanhar Dinha no apoio ao deputado federal Paulo Azi.
O que antes parecia uma divergência eleitoral ganhou contornos de confronto aberto.
A “prefeita” antes da hora?
Chamar Simone Costa de “prefeita” poderia ser tratado simplesmente como força de expressão. O problema é o contexto.
Quando a frase é pronunciada por um ex-prefeito politicamente afastado do atual gestor, diante de uma vice-prefeita e acompanhada da expressão “essa sim não desbota”, a fala inevitavelmente alimenta especulações sobre o futuro da aliança que venceu a eleição municipal.
Isso não prova a existência de qualquer articulação para retirar Del do cargo — e seria irresponsável afirmar isso sem provas.
Mas politicamente levanta uma pergunta inevitável:
Por que Dinha resolveu chamar publicamente a vice de “prefeita” justamente no momento em que sua relação com Del atravessa uma de suas maiores crises?
A pergunta está colocada.
Dinha e a política da conveniência
A postura de Dinha merece uma análise crítica.
Enquanto Del caminhava politicamente de acordo com os interesses do grupo liderado pelo ex-prefeito, aparentemente havia sintonia. Bastou o atual gestor escolher outro caminho na disputa para deputado federal para surgirem críticas, provocações e demonstrações públicas de distanciamento.
É justamente aí que aparece a questão central: até onde vai a lealdade política de Dinha quando um aliado deixa de seguir suas determinações?
A política não pode funcionar como contrato de obediência.
Prefeito não é funcionário de ex-prefeito.
Vice-prefeito não pode ser transformado em instrumento de pressão.
E mandato popular não deveria estar subordinado aos interesses eleitorais de quem deixou o cargo.
Quando uma liderança só considera aliado aquele que segue suas escolhas, apoia seus candidatos e aceita suas decisões, o que existe não é necessariamente parceria política. Pode existir apenas conveniência.
Cajado entra no jogo.
Do outro lado, o deputado federal Cláudio Cajado também mandou seu recado durante a semana:
“Mexeu com Del e com Fiinha, mexeu comigo.”
A frase mostra que Del já não parece politicamente sozinho nesse enfrentamento.
O próprio prefeito também elevou o tom ao declarar que não negocia cargos políticos e que, em suas conversas, pede recursos para investir na população de Simões Filho.
A declaração ganha peso no ambiente de disputa com Dinha, especialmente diante da relação política do ex-prefeito com Paulo Azi.
Reportagem anterior deste espaço apresentou documentos referentes à presença de Dinha e de Giovana Cerqueira de Oliveira na estrutura parlamentar ligada ao deputado. A existência desses vínculos funcionais, porém, não deve ser tratada separadamente, e sim deixa claro que existiu negociação política visando seus próprios interesses.
E onde estava Simone?
Outro episódio aumentou as especulações.
Na inauguração da contenção de encosta na Avenida Washington Luiz, conhecida como Estrada de Candeias, a ausência da vice-prefeita Simone Costa chamou atenção.
Uma ausência isolada não significa rompimento e pode ter inúmeras explicações. Mas, somada ao ambiente político das últimas semanas e à declaração de Dinha chamando Simone de “prefeita”, tornou-se mais um ingrediente para as conversas de bastidores.
E a pergunta voltou às ruas:
Simone continua politicamente alinhada com Del ou já está caminhando definitivamente ao lado de Dinha?
Só ela poderá responder.
O problema de Dinha talvez seja Del ter aprendido a dizer “não”
A impressão política deixada pelos últimos acontecimentos é que Del começou a construir uma identidade própria.
E talvez esteja justamente aí a origem do conflito.
Dinha governou Simões Filho por oito anos e naturalmente construiu um grupo político com grande influência. Entretanto, seu sucessor recebeu nas urnas um mandato próprio. Del agora responde pelos atos da Prefeitura e será cobrado pela população pelas decisões que tomar.
Não existe “prefeito por procuração”.
Se Del resolveu apoiar outro deputado federal por considerar que essa parceria poderá trazer mais recursos para Simões Filho, cabe ao eleitor julgar essa escolha.
O que não parece razoável é transformar uma divergência eleitoral numa guerra permanente pelo controle político da Prefeitura.
A máscara da unidade caiu.
O vídeo pode ter produzido algo que nenhum discurso oficial conseguiu esconder: a antiga unidade política está profundamente abalada.
De um lado, Dinha, Paulo Azi, Kátia Oliveira e agora uma aproximação pública cada vez mais evidente com Simone Costa.
Do outro, Del fortalecendo sua relação com Cláudio Cajado e buscando demonstrar independência política.
A eleição parlamentar virou uma espécie de divisor de águas.
E talvez a grande questão já nem seja saber quem “desbotou”.
A pergunta mais importante é outra:
Dinha está preocupado com os rumos de Simões Filho ou incomodado porque já não consegue determinar sozinho os rumos políticos do atual prefeito?
Porque existe uma enorme diferença entre construir um sucessor e querer continuar governando através dele.
Del foi eleito para governar Simões Filho.
Dinha já teve seus oito anos.
Agora, se o atual prefeito decidiu caminhar com as próprias pernas, fazer suas próprias alianças e buscar recursos através de quem considera capaz de ajudar o município, isso faz parte da autonomia do mandato que recebeu nas urnas.
A política de Simões Filho ganhou um novo capítulo.
E, depois de Dinha chamar Simone Costa de “prefeita” diante de uma plateia e completar que “essa sim não desbota”, ficou difícil convencer a população de que está tudo bem entre os antigos aliados.
A temperatura subiu. A máscara da unidade caiu. E a disputa pelo comando político de Simões Filho está cada vez mais exposta.

0 Comentários